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Fogo temporário

Luis Fernando Verissimo

O francês Jacques Le Goff era (ou ainda é, acho que está vivo) um historiador especializado na Idade Média. É dele a teoria de que o Purgatório foi criado oficialmente pela Igreja, na segunda metade do século 12, para permitir que bons católicos pudessem emprestar dinheiro a juros sem ir direto para o Inferno, que até então era o castigo prescrito para a usura. O édito pontifical que determinou essa radical mudança na geografia do Além chamava o Purgatorium, palavra que usava pela primeira vez como substantivo em vez de adjetivo, de “fogo temporário”. O martírio do Purgatório era igual ao do Inferno, mas com prazo para terminar. Depois de purgada, a alma do cristão ia para o Céu, ficha limpa. E os lucros com os juros em vida mais que compensavam o sofrimento temporário depois da morte.

Mas Le Goff também teorizou sobre um fascinante paralelo entre a experiência das almas no Purgatório e o crescimento da narrativa pessoal como género literário. Ideias sobre algum tipo de purgação depois da morte para pecados menores eram comuns desde a Antiguidade, mas o Purgatório como um espaço definido entre o Céu e o Inferno, regulamentado, por assim dizer, pela Igreja, era uma novidade. Era o cenário para uma aventura da alma humana. O trajeto de um espírito penitente nesta paisagem era uma história de salvação individual, enquanto as almas que iam para o Céu ou o Inferno não tinham mais história, trocavam o histórico pelo eterno. Nada mais lhes acontecia depois da morte, salvo o fogo infinito punindo os caídos no Inferno. Já o Purgatório era um drama com começo, meio e redenção final. O Purgatório introduziu o enredo no Além. E o Além, por sua vez, inspirou a literatura do Ocidente, com suas narrativas de heróis e mártires sofrendo as provações do Mundo.


Dick

Como a daquele banqueiro de Wall Street, Dick, que morreu e foi para o entreposto onde as almas são selecionadas, classificadas e encaminhadas de acordo com o destino que merecem. Dick identificou-se para uma recepcionista, que digitou seus dados no computador, sacudiu a cabeça e decretou:

- Inferno.

Dick protestou:

- Mas porquê?!

- Ganância.

- Eu não sabia que ganância era pecado!

Não adiantou. A recepcionista não o ouviu e estava quase apertando o botão vermelho que abriria o alçapão sob os seus pés para depositá-lo no Inferno quando Dick segurou a sua mão e exigiu a presença de um supervisor.

Para o supervisor, insistiu que, de onde vinha, a ganância era considerada uma virtude. Era a ânsia do lucro que movia as empresas. Era a ânsia de lucrar que trazia o progresso, que fazia os homens prosperarem e enriquecerem. Ele aprendera que ganância era bom. E que, decididamente, não era pecado. Não merecia ir para o Inferno.

O supervisor estava cansado. Só naquele dia já atendera dezenas de almas pedindo reclassificação. Desistiu de argumentar que lucrar honestamente não era ruim, mas lucrar milhões com a mentira, enganando os outros, inventando maneiras de multiplicar o valor de papéis imprestáveis - enfim, com ganância desenfreada -, era pecado, sim. Decidiu ser caridoso com Dick. Disse que, se ele se arrependesse da sua atuação em Wall Street, das suas falcatruas e da sua cupidez, mudaria sua sentença.

- Me arrependo, me arrependo! - apressou-se a dizer Dick.

- Você irá para o Purgatório, onde sofrerá um pouco com o fogo provisório mas sairá regenerado para o Céu.

- Puxa! Obrigado. Muito obrigado!

O supervisor reencaminhou Dick para ser reclassificado pela recepcionista. Mas, no meio do caminho, Dick virou-se e perguntou:

- Vem cá, eu não ganho uma gratificaçãozinha para ficar no Purgatório?

E o supervisor gritou:

- INFERNO!


Domingo, 12 de abril de 2009.



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